Tríptico

O Orvalho e os Dias - 2019

2019

Há 20 anos (quase 21), foi publicado meu primeiro livro, O orvalho e os Dias. Um livro muito importante para mim: pelo motivo óbvio de ter sido meu primeiro livro; por ter sido minha tentativa de dar conta do que para mim era e ainda é inefável; por minha coragem de publicar poemas sobre um tema tão “fora de moda”; por ter sido um sim que veio me devolver algo a que eu havia dado um radical não; por ter sido premiado e publicado milagrosamente — eu acredito nisso.

E também um livro que agora, com três diferentes edições (todas elas trazendo distinções em relação às anteriores), um livro que agora é para mim mesmo um mapa de uma trajetória literária e mística.

Entre os anos de 1996 e 1998, escrevi muitos poemas. Alguns deles, eu recitava nos saraus que organizávamos pelo C.A. de Letras, na UFAL. Em sua maioria, eles eram uma busca de colocar no papel minha experiência mística: eu era um jovem que queria ser santo. E assim, eu era um jovem radical. Tão radical, que anos antes, em 1992, abri mão das buscas de ser ator e de ser escritor (minhas maiores vontades). Abri mão delas para poder alcançar mais alto, a santidade. Fiz isso porque haviam dito a mim que minhas obras seriam tão melhores quanto mais perto da perfeição eu fosse. Bobo engano. Não sabíamos que a arte acontece justamente para dar conta de nossas faltas, acontece justamente para que possamos ter em nossas obras o afeto que tantas vezes falta em nós mesmos. Mas, eu ainda não sabia disso; então, abri mão de atuar e de escrever, para poder depois atuar e escrever melhor.

O que eu não sabia era que, meses depois, eu não ia mais querer fazer arte, porque minha busca já não seria mais uma troca com Deus (eu lhe dou minha arte e me aproximo de Você, para depois Você me devolvê-la).  Meses depois, eu já buscava por Ele.

Dos poemas presentes no livro, dois são os mais antigos: um que escrevi após uma desilusão, quando um rapaz não me quis (depois, eu o reescrevi bastante, e o que está no livro é bem diferente do que era quando em sua primeira versão); um que me surgiu, quando eu morava em São Paulo, no começo da busca mística.

Eu morava em uma pensão no bairro da Bela Vista. Eram quartos coletivos. Eu tinha 21 anos de idade e era gerente em uma livraria nos Jardins. Sempre andava com roupas caras, sapatos caros, perfume caros. Era a inteligência a serviço do nada, a serviço da futilidade.  Amava ler, mas não tinha vida interior.

Um dia, uma família passou a morar num dos quartos da pensão. Uma senhora e dois filhos. Acho que eles tinham 19, 17 e 15 anos de idade. Eu os admirava, porque me pareciam muito inteligentes e tinham uma espécie de paz que eu não conhecia. Como sempre fui muito curioso, desci ao quarto deles e lhes perguntei por que eles eram tão diferentes. Perguntei-lhes o que eles tinham. Então, a mulher me disse: “Deus”. “Deus?”, eu perguntei. E ela confirmou a resposta: “Sim, Deus”. Dei um sorriso e fiz uma outra pergunta: “Como eu faço para ficar assim como vocês?”. E ela me disse: “Venha viver como nós”.

No outro dia, pedi demissão na livraria e passei a viver com eles, que eram muçulmanos recém convertidos ao catolicismo, e cujos livros de estudos eram em sua maioria tratados teóricos e vidas de santos que viveram muitos séculos antes de nós. Assim, nossa busca pela santidade não foi de modo algum algo suave.

Mas, não é sobre essa experiência que quero falar aqui, e sim sobre o livro, que foi sendo escrito ainda quando eu havia aberto mão de escrever qualquer coisa. Uma noite, tive um sonho estranho: eu estava entrando numa sala enorme que parecia representar o intervalo entre o aqui/agora e a eternidade. Ao conversar com um dos rapazes sobre esse sonho, senti-me tomado por uma espécie de sabedoria infusa, como se numa imagem eu tivesse compreendido o que seria toda a trajetória, como se eu tivesse percebido que a caminhada ia ser sempre uma lembrança de uma luz que eu houvera percebido apenas no  começo de tudo, e que só iria revê-la no fim. Essa imagem, então, tornou-se palavras: “Mas antes do dourado da abóbada há a escuridão. E ainda, antes desta, a abóbada”.

Anos depois, essa sentença síntese tornou-se um poema, um “Resumo”.

Em 1994, por conta de algumas desavenças, afastei-me do grupo e voltei para Maceió — aproveitei que meu pai tinha ido a São Paulo visitar-me.

No ônibus, enquanto voltávamos, eu disse a Deus (sem saber que Santa Joanna D’Arc já havia falado algo semelhante): “Meu Deus, eles me disseram que eu só poderei ser santo se eu estiver com eles. Eu não quero ficar, eu quero ir para Maceió. Se eu estiver na Sua graça, me mantenha; se eu não estiver, me coloque — porque eu não vou voltar”.

Durante meses, coloquei no papel meus diálogos com Ele: declarações de amor, xingamentos, chamados para a briga, recusas… Eu não poderia fingir para Ele. Então, não poderia ser manso quando dentro de mim houvesse cólera.

Eu havia recusado a escrita por conta d’Ele, mas agora era justamente a escrita meu maior modo de falar com Ele e sobre Ele.

Eu não sabia que meus textos pudessem ser poemas ou virar livros. Mas, lendo alguns autores, percebi que sim, podiam, porque não há limites temáticos para a literatura.

Em 1997, submeti uma primeira versão do livro à Edufal, mas felizmente ela foi recusada. Era um livro muito proselitista, quase panfletário.

Em 1998, eu vi um anúncio sobre um concurso: o II Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e pela Revista Livro Aberto.  Infelizmente, o prazo de envio já havia sido encerrado.

Fiquei triste e rezei, pedi a Deus que o prazo fosse prorrogado. Se houvesse a prorrogação, eu iria trabalhar muito e reescrever o livro. Iria me dedicar totalmente a ele.

Semanas depois, recebi pelos Correios um envelope enviado por uma amiga que estava fazendo mestrado em Meteorologia no estado de São Paulo. Éramos amigos do Ensino Médio. Dentro do envelope, um jornal da universidade em que ela estava estudando. Folheei-o, até que vi, numa das páginas, algo envolto por um círculo que ela houvera riscado com hidrocor. Dentro do círculo, a notícia de que o II Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e pela Revista Livro Aberto, havia sido prorrogado. Quase não acreditei no que vi. Eu não havia comentado com pessoa alguma a respeito do concurso. Então, pensei/decidi: “foi Deus”.

Passei dias trabalhando na reescrita do livro. Cortei diversos poemas, tentei diminuir o tom ufanista e proselitista. Trabalhei nele todas as noites, todos os dias. Eu chegava da universidade, comia e ia trabalhar no livro até ficar extenuado.

No último dia do prazo, eu o enviei.

Meses depois, recebi a notícia de que ele havia sido premiado. A universidade pagou minhas passagens (eu pedi auxílio, pois era um concurso universitário). A professora Gilda de Albuquerque Vilela Brandão (que era diretora do antigo CHLA) fez uma cartinha para que mostrasse aos professores — na cartinha, ela solicitava que os professores contribuíssem com alguma quantia para que eu tivesse dinheiro para gastar durante a viagem. Fui, lancei o livro, voltei.

O Orvalho e os Dias - 1998

1998

Por anos, fiquei insatisfeito com ele. Parecia-me um livro fácil, como se eu não tivesse suado o suficiente. Parecia-me que precisava de algo mais, de um apuro maior com relação à forma.

Em 2006, surgiu um novo concurso, o Projeto Alagoas em Cena. Então, revisei o livro, adicionei alguns poemas, cortei outros — mudei a forma da maioria que permaneceu. Inscrevi-o. Ao enviar o livro, enviei também uma carta justificando a inscrição. Nela, eu disse que um homem aos 28 anos tem um nome; aos 36, tem o mesmo nome — no entanto, sob o mesmo nome, havia um outro homem.

O Orvalho e os Dias - 2006

2006

O livro foi premiado, sendo publicado pela Edufal. Mas agora ele era bastante diferente do anterior.

O Orvalho e os Dias é uma espécie de longo poema tratando da trajetória de um eu poético. Em sua primeira versão, ela ia até a visão beatífica — algo que só poderia ter sido escrito por alguém cheio de amor, cheio de paixão. Na segunda versão, o amor já estava mais misterioso, a paixão já havia arrefecido. Assim, foram cortados os textos beatíficos, e para justificar sua ausência, entrou um novo poema, em que se diz o seguinte: “Por isso muito se evola / e por isso é muito fraca / a palavra que não trata / do que se imprimiu ao corpo / ou que já marcou-lhe a alma”.

Em 2016, a Imprensa Oficial lançou um Edital de Reedição de Obras não Inéditas. As obras foram lançadas agora em 2019. Dentre elas, O Orvalho e os Dias agora em sua terceira versão.

A primeira e nunca lançada versão do livro tinha quase 100 poucos poemas; a primeira versão publicada tinha 77; a segunda, 50; a terceira tem 38. Muitos dos poemas cortados durante estes mais de vinte anos foram parar no meio dos textos em prosa.

É isto: O Orvalho e os Dias volta com nova roupa, com o mesmo nome — um mesmo livro, mas outro livro, como somos todos nós. E colocando-os lado a lado, como num tríptico verbal, acabo vendo a mim mesmo.

Além do mais, é um livro envolto num imenso mistério: abri mão de escrever para poder estar mais próximo de Deus — e meu primeiro livro foi justamente sobre minha relação com Ele.

Não quero falar sobre essa relação, porque não é simples, não é calma. Sei que é Amor —e como todo amor, é mais mistério que conhecimento.

O Orvalho e os Dias pode ser lido como um conjunto de poemas ou como um único poema que se alonga, dando-nos a trajetória da aventura entre um eu lírico e seu desejo. Dialogando com ancestrais que também puseram em poemas a intranquila relação com o Inteiramente Outro, este livro traz ecos de Adélia Prado, Cecília Meireles, Gerard Hopkins, Hilda Hilst, Jorge de Lima, São João da Cruz, T. S. Eliot… São poemas sobre o difícil diálogo com um outro que ora se mostra ora se esconde. São poemas sobre Deus — mas há quem diga que são também sobre aquele rapaz que acabou de dobrar a esquina.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: