“A damn boy”

Entrevista em torno de “A ceia”.

O conto “A ceia”, após ter sido publicado em espanhol (trad. de Pablo Cardellino Soto) e em francês (trad. de Stéphane Chao), acaba de ser publicado em inglês na revista inglesa Bookanista, com tradução de Kim Hastings, sob o título “The supper”. Agora, ele faz companhia a “A fresta”, lançado em inglês (trad. de Alison Entrekin) na também londrina Litro Magazine.

fumage_buendicc81a

Sem Título, Fumage, 2017. Arthur Buendía

Para a publicação na revista, a Kim Hastings fez uma entrevista comigo. Publico aqui a entrevista em português, para que possam ter acesso a ela aqueles que não puderem lê-la em inglês.

Como a entrevista precisou ser editada para ser publicada na revista, coloco aqui as respostas na íntegra.

Kim Hastings: De onde surgiu a ideia para esta história?
Nilton Resende: A história nasceu realmente num momento em que eu estava comendo um biscoito. Minha língua sentiu o padrão desenhado nele e me lembrei de um jogo que eu costumava jogar com meu avô paterno. Enquanto mordia o biscoito, surgiu a primeira linha, e daí comecei a escrever.
Pensei na ideia de busca de espaço, busca de afirmação. Afirmação através da negação. O pai do menino nega o próprio pai para dar espaço ao filho, como se fosse uma questão de física: algo tem que ir embora para que outro possa tomar o seu lugar.
Há também as questões sexuais. O menino tem uma ereção logo no começo da história, enquanto o pênis do velho está enrugado.

KH: E quanto à escolha do título?
NR: Sobre o título, eu penso de duas maneiras: em referência à traição de Judas em relação a Cristo, logo após a Última Ceia; e, principalmente, em referência ao fato de que o menino “engole”, o menino alimenta-se do velho.

KH: Você pode falar um pouco sobre o jogo que o avô ensina ao menino? É uma versão de um antigo jogo de tabuleiro chinês?
NR: Sim, é uma variação do “Go”. Mas o jogo entre o avô e o neto é mais simples: uma grade é desenhada e os grãos são colocados nos pontos. Quando um jogador consegue “capturar” o feijão do outro, ele é removido do jogo ou “comido”. O avô brincava com o neto em uma grade que o velho traçava em papel ou papelão. No jogo final, o garoto esculpe uma grade na madeira, um sinal de sua maior força e superioridade.

IMG_0409

Foto: Josué Seixas

 

KH: Em seu jogo de poder, o menino concebe todo tipo de jogo diabólico, brincando com o avô física e psicologicamente. É difícil imaginar tal crueldade. Você podia falar sobre seu processo de pensamento na criação dessa personagem?
NR: Acho que a crueldade do menino em relação ao avô é algo bem possível. É na verdade uma busca reiterada de prazer. O prazer que o poder dá a quem o possui, de modo a renovar as ações que afirmem o poderio, usufruindo do gozo a cada nova vez. Talvez o menino esteja agindo menos pela crueldade em si e mais pelo prazer que o poder lhe dá.
E mesmo que seus atos sejam apenas pela crueldade, acho isso bastante plausível. Para mim, o humano é o território do possível. Se posso esperar dos seres humanos atos os mais sublimes, também tenho de estar preparado para atos os mais torpes.
Acho estranho quando alguém diz que não seria “capaz de” fazer algo terrível. Ser “capaz de” algo é ter poder para algo, é ter capacidade para algo; isso é diferente de “querer” fazer algo. Então, posso dizer que sou capaz de matar alguém — mas não quero matar alguém. Assim, a bondade e a maldade estão intimamente relacionadas à vontade. Não acho que sejam questão de caráter, como se fôssemos seres puros, inteiramente bons ou maus, facilmente classificáveis. Somos seres que, durante nossa vida, passamos por diversas situações e temos de fazer opções, tomar decisões, umas mais fáceis, outras mais difíceis.
Mas, claro, não coloco a questão de casos patológicos, de pessoas com distúrbios de relacionamento, sociopatas etc.
Falo das pessoas comuns, com as quais convivemos cotidianamente. Aquelas pessoas que um dia podem estampar as páginas de um jornal nas páginas policiais, e das quais possivelmente diremos: “oh, eu nunca esperaria isso dessa pessoa”. Pois eu digo: não costumo me surpreender com as pessoas, por seus atos bons ou maus. Não é que eu fique esperando que alguém vá fazer algo mau — é que eu simplesmente não me surpreendo.
Talvez isso seja decorrente de eu ter por um tempo vivido uma radical experiência religiosa: eu queria ser santo, eu buscava a santidade, vivi por quase três anos numa religiosidade católica quase medieval. E durante isso, os exames de consciência eram profundos — até chegar o momento em que eu não sofria mais pelo mal que fiz, mas pelo bem que não fiz.
Após essa experiência, passei a saber que eu podia ser capaz de muita coisa. Passei a saber de nossa capacidade como espécie e como indivíduo.
Na Odisseia, de Homero, há uma imagem que eu amo. Atena diz algo que desagrada a Zeus, seu pai. Então, ele lhe dá uma reprimenda, perguntando-lhe que palavra foi aquela que escapou de sua “cerca de dentes”. Acho linda essa imagem, acho uma das coisas mais belas que já li. É bonito vermos os dentes como essa cerca que tolhe a língua, evitando que saia dali o que deve permanecer.
De modo semelhante vemos nossas tendências, o rol de possibilidades que há em nós. Por isso não acho tão inconcebível a perversidade do menino do conto. Acho que ele apenas deixou escapar da cerca sua tendência ao mal.
É interessante sabermos do que somos capazes, como espécie e como indivíduo. É interessante que tudo esteja presente na literatura, inclusive o mal. Mas também não gosto de quando a violência aparece de modo a parecer que pretende apenas chocar. Acho que desse modo ela perde o valor, o poder. Acho interessante quando ela aparece mas temos condições de perceber ali o jogo de forças, quando as personagens têm algum possível mistério, quando não são rasas. Digo isso em relação a textos que gosto de ler, não digo como quem tenha conseguido escrever algo assim.
Há muitos temas que nos agoniam e dos quais tentamos fugir. Há temas que até os nomes nos repelem, mas se não conseguimos lidar sequer com os nomes das coisas, como vamos conseguir lidar com as coisas? As palavras estão aí também para que nos aproximemos das coisas.
Há muitos aspectos em nós que são nossos, mas com os quais lidamos como se pertencessem a algo distante ou totalmente estranho.
Acho que devemos nos aproximar desses aspectos sem assombro. Quanto mais nos assombrarmos com aquilo que forma nossa natureza, menos conseguiremos lidar com ela.

KH: Como foi a sua própria infância? Você foi atraído pela literatura e por suas possibilidades desde cedo?
NR: A minha juventude foi basicamente em torno da literatura. Sempre fui muito tímido, então me refugiei nos livros. Costumo dizer que enquanto minhas irmãs estavam nos bares com os amigos, eu estava dentro do quarto lendo. Desde criança eu gosto de ler. Minha família sempre gostou de ler: gibis, livros, em todos os lugares. Todo mundo sempre levava e leva algo para ler no banheiro.
Quando eu ia almoçar, levava gibis para a mesa. Meus avós brigavam e tomavam o gibi de minhas mãos, então eu ficava lendo os rótulos das caixas de remédio de minha avó ou os rótulos dos vidros de temperos. Enquanto levava a comida à boca com uma mão, com a outra eu ficava virando as caixinhas e lendo tudo que estava ali.
Sou fascinado pelas palavras.
Mas sempre fui muito tímido, medroso, inseguro. Minha autoestima sempre foi baixa, abissal, tipo “Fossas Marianas”. Tinha vergonha de sair de casa, de ir à praia, de ir a festas, de paquerar alguém, de ser visto… Quando criança, eu sonhava em ser dançarino. Eu amo dançar. Mas um dia, o amante de uma tia minha viu-me dançando e me perguntou se eu era o Ney Matogrosso. Porra, o Ney Matogrosso é foda, é um de nossos maiores artistas, mas ali, naquele momento, ele se valeu do nome do Ney apenas para tentar me violentar com seu preconceito de macho heterossexual e bronco. A partir desse dia, pus rédeas no meu corpo, castrei-o. A timidez aumentou. Também sonhei em ser ator, mas a timidez não me permitiu seguir. A literatura me veio meio como o meio possível de eu me relacionar com o mundo. Não conseguindo lidar com ele diretamente, usei a literatura como ponte. E também, não tendo tido coragem para dançar, por ter cedido e aprisionado meu corpo, e por não ter investido em ser ator, terminei investindo mais na literatura — ela pareceu combinar mais com alguém que não tinha coragem para se posicionar no mundo, para assumir seu corpo no mundo. Acho que tudo teve a ver com a negação do corpo.
A literatura foi minha maior companhia da adolescência à juventude. E grande parte do que sei de mim e das pessoas eu devo a ela. Em especial, à obra de Lygia Fagundes Telles, que é “meu contista preferido”. Digo “meu” porque é isso tanto entre obras escritas por mulheres quanto por homens. Suas personagens me ensinaram muito sobre mim mesmo e sobre o ser humano. Além disso, ela é uma escritora com imenso domínio da arte narrativa. Além da preocupação com a fabulação, há uma preocupação enorme com a forma como é narrado cada texto. Seus narradores sempre são ótimos objetos de análise.
Posso dizer então que minha juventude esteve sempre ligada à obra da Lygia, ensinando-me sobre o ser humano e ensinando-me sobre a escrita.
Um conto dela, chamado “A medalha”, salvou a relação entre mim e minha mãe. Esse conto é uma terrível história em que há uma jovem e sua mãe digladiando-se até as últimas consequências. Ao entender aquilo, ao entender como aquilo se dava (e Lygia nos dava as questões humanas através das falas das personagens e também através dos elementos de composição de cena, preenchendo tudo com importância simbólica), entendendo isso, eu decidi que não queria que minha relação com minha mãe sofresse as mesmas consequências, e desde então mudei minhas atitudes, e ela também.
Um outro conto dela, chamado “Venha ver o pôr do sol”, é uma obra prima de sedução e manipulação do leitor, e há vinte anos eu sempre leio ele para meus alunos no primeiro dia de aula. Então, a literatura e Lygia também ajudaram-me na minha vida profissional.
Agora, sou ator e escritor. Também faço adaptações de obras literárias para teatro e cinema, dirijo peças teatrais e agora, em fevereiro, dirigirei meu primeiro curta metragem, que será baseado em um conto de Lygia: o conto chama-se “Natal na barca”, o filme será chamado “A barca”.
O que sou hoje, como pessoa e como profissional, devo à literatura. Meu conhecimento de mundo e meu conhecimento do outro, devo à literatura. A literatura também me pariu.

KH: Além de escrever prosa, você é poeta. Prefere um gênero ao outro? Quanto aos temas que aborda/explora em cada um, há coincidência?
NR: Acredito que eu seja um prosador que de vez em quando escreve poemas. Acredito que meus melhores textos são os de prosa.
Li mais prosa do que poesia, alimentei-me mais de prosa do que de poesia, então acho que meu conhecimento de poesia é menor. E um escritor mediano tem de ser primeiro um grande leitor; um escritor bom tem de ser leitor, leitor sempre.
Quando digo que meu conhecimento de poesia é menor, digo no sentido empírico, no sentido da relação mais íntima.
Por exemplo, fico sempre pensando sobre narrativas, sobre modos de narrar — algo que sempre me instiga quando leio textos em prosa. As fábulas dos textos têm me interessado cada vez menos. Isso é também um pouco uma consequência de meus estudos da obra da Lygia Fagundes Telles, exímia mestra da arte narrativa.
Então: sou mais prosador do que poeta. E sobre os temas que povoam meus poemas e minha prosa, acho que percebo uma distinção: os poemas geralmente nascem para dar conta de algo muito particular, em geral, o desejo, a relação com o outro. Aconteceu assim em meus dois livros.
Meu primeiro livro, O Orvalho e os Dias, tentou dar conta de uma experiência mística — nele, o meu outro é o Inteiramente Outro, o Kadosh, Deus. Ele é Aquele de que falo e para quem falo, muito embora, claro, alguém possa ler os poemas e colocar uma outra pessoa em seu lugar. Escrevi esse livro porque meu amor por Ele, porque a experiência de relacionar-me com Ele não conseguiu ficar muda, precisou expandir-se.
O livro teve uma primeira versão, em 1998, que era uma versão mais apaixonada. A segunda versão, de 2006, a paixão havia arrefecido. Revisei o livro, mas os poemas não conseguiram permanecer do mesmo jeito, porque agora eu estava em crise, agora não havia beijos, agora havia mais silêncio e recusa ou medo.
O livro, em ambas as versões, é amoroso e raivoso, é sacro e profano, é respeitoso e blasfemo. Afinal, não pode haver amor sem blasfêmia. Não pode haver amor com rédeas ou entre cercas.
Amar Deus, amar um deus é terrível. E muitas vezes ainda tenho medo de me reaproximar d’Ele — pelo menos, medo de me reaproximar como da primeira vez. Medo do que o amor possa vir a me pedir.
Sabemos que amar alguém não é qualquer coisa, que uma relação não é qualquer coisa. E se esse alguém é um deus, isso certamente não é qualquer coisa.
Lembrei-me agora do livro The End of the Affair, do Graham Greene, e de sua adaptação (belíssima) feita pelo diretor irlandês Neil Jordan.
Aqui, coloco quatro poemas curtos desse livro (alguns deles são longos), tentando dar uma ideia do que há nele:

Aforismo

Sou ladrão. E Deus
coloca o dinheiro
gracioso na
minha mão, dizendo:
vai comprar.

Brevíssima Teoria

O Deus
de que eu
vos falo
é Deus
de afagos,
poeta.

E afagos
de chama.
Ladainha Que Não É

O Senhor é pesado,
árvore caindo sobre o lenhador.

Arrepende-me o ter-lhe batido à porta,
arrepende-me.

O Senhor é pesado,
árvore caindo sobre o lenhador.

Arrepende-me o ter-lhe batido à porta,
arrepende-me.

O Senhor é pesado,
árvore caindo sobre o lenhador.
Resumo

Mas antes
do dourado
da abóbada

há a escuridão.

E ainda,
antes desta,
a abóbada.

No livro Ouriço, meu outro é um outro. Esse livro nasceu de uma experiência também de relação, mas agora com uma pessoa, com um homem. Esse livro foi uma tentativa de dar conta da falta do outro.
Um amigo meu (até então, ele era heterossexual) percebeu/resolveu/decidiu ter uma relação com um outro homem. Uma noite, saindo de uma sessão terapêutica, ele me telefonou, dizendo que queria ficar comigo. Eu pensei que ele estivesse brincando. Afinal, ele sempre soube que eu o achava interessante.
Ele foi à minha casa e saímos. Ficamos algumas horas, para que ele experimentasse o corpo de outro homem, para que ele tivesse a experiência de estar com outro homem, como julgaram pertinente, na terapia, ele e a sua terapeuta.
Então, ficamos. Mas ele queria só aquele momento. E eu quis mais.
Ouriço nasceu de eu não tê-lo mais. Muito embora, depois, tenhamos voltado a ficar juntos — mas isso bem depois da negação, bem depois de o livro ter sido escrito.
Quando terminei de escrever (eu estava sofrendo), tive uma alegria: ele teve a experiência de que precisava, e eu agora tenho um livro.
É um livro curto, de apenas 10 poemas.
Coloco aqui um trecho de um deles e um por inteiro:

V
(trecho)

quanto de leveza
pode haver sob o áspero

— o peito do ouriço,
acaso, tem espinhos?
X

A cama revolta,
e eu revolto,

o olhar
tateando o vazio.

À margem de ti
eu me vejo

— um barco
dobrando o rio.

De lenta,
a nau é bem ágil,

e sopram suas velas
uns ais.

É a memória,
no naufrágio,

o último bote pro cais
— e não há cais.

Acho que na prosa todos os temas aparecem. Digo isso em relação à minha escrita, claro. Faço aqui a distinção entre poesia e prosa em relação à minha escrita.
Nos poemas, eu me escrevo com menos véus. Na prosa, eu me fantasio, eu me visto de modo mais esmerado — na poesia, eu me dispo; na prosa, eu me cubro mais.
A poesia é uma tentativa de dar conta de mim; a prosa é uma tentativa de dar conta do mundo, mesmo que o ponto de partida seja eu. E isso é interessante porque há poetas que dão conta do mundo através da poesia. É bonita essa diversidade, os diversos modos de nos relacionarmos com a arte.
Com a poesia, eu não escrevo o mundo, eu me escrevo. O mundo, eu tento escrevê-lo através da prosa.
Na poesia, estou nu. Na prosa, eu tento tirar a roupa do mundo.

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: